Perspectivas 2014 e o agro

Perspectivas 2014 e o agro

Por José Otavio Menten, presidente do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), vice-presidente da Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior (ABEAS), Eng. Agrônomo, Mestre e Doutor em Agronomia, Pós-Doutorados em Manejo de Pragas e Biotecnologia, Professor Associado da USP/ESALQ.

Todo início de ano surgem diversas previsões sobre o desenvolvimento do país e do mundo. São apresentados os principais acontecimentos, seus prováveis resultados e as metas que podem ser atingidas. Os temas considerados mais importantes são os mais explorados. Além dos prognósticos econômicos, há destaque para política, esporte, movimentos sociais, educação, segurança pública, saúde, drogas e, até mesmo, ciência. Em geral, o agro ainda não é lembrado, apesar de se constituir no setor mais importante de nossas vidas em termos de alimentos, empregos, ambientes, PIB, exportações, balança comercial etc.

Na economia, o crescimento previsto para o Brasil em 2014 é de 1,5 a 2,5%, enquanto o mundo deve crescer 3,3%. O Real deve continuar desvalorizado, a inflação pode alcançar 6% e os juros 10% a.a. A expectativa é de aumento da dívida federal, dos gastos públicos (ano eleitoral) e do "spread" bancário (25 pontos percentuais). O Brasil deve ser rebaixado pelas agências de classificação de risco. A desindustrialização deve continuar. Espera-se a continuação dos programas de privatização e concessão de aeroportos, portos e rodovias, melhorando nossa infraestrutura e logística.

As manifestações populares devem continuar com ações dos "black blocs", atos de vandalismo e confrontos com a polícia, apesar do apoio da sociedade ser cada vez menor. As eleições devem ser equilibradas, tanto para presidente como para governadores, senadores e deputados (Federais e Estaduais). A Copa do Mundo da FIFA vai polarizar as atenções com a clara expectativa do Brasil ser, novamente, campeão! Entretanto, existe grande possibilidade de problemas nos aeroportos, arenas, vias de acesso, hotéis, restaurantes, taxi, transporte público, segurança etc.

Espera-se avanços nos tratamentos de diversas doenças e desconfiança no “Programa Mais Médicos”. Na educação existe crescente preocupação com a qualidade do ensino superior, com a abertura, sem o devido controle, de diversos cursos e o fechamento de universidades tradicionais, além das recorrentes críticas ao ensino fundamental e médio. As drogas e os crimes vão continuar a preocupar. Quais serão  as descobertas científicas que causarão maior impacto em 2014?

Para o agro, as previsões são mais otimistas e concretas. Porém, muito pouco exploradas e divulgadas, exceto na mídia especializada de agro. A sociedade, cada vez mais urbana, ainda não é alcançada por estes temas, com a intensidade adequada. Entretanto, o agro vai fazer parte dos planos de governo de todos os candidatos a presidente e o tema será importante nas campanhas políticas. Isto é consequência da melhoria da imagem e reputação do agro pela sociedade urbana, graças ao empenho do setor em se comunicar mais e melhor. As frentes parlamentares em defesa do agro deverão intensificar suas ações para que haja retomada de investimentos no setor.

O agro deverá continuar crescendo em 2014. Em 2013 a agricultura cresceu 7% (R$ 234,6 bilhões), sendo o setor que mais contribuiu para que o PIB brasileiro atingisse 2,3%. Em 2014 deve ser, novamente, o principal setor de nossa economia, talvez um pouco abaixo de 2013. Os grandes desafios para 2014 são infraestrutura logística (transporte multimodal e capacidade de armazenamento), legislação/direito a propriedade, fortalecimento das cooperativas e associações de produtores, diversificação e agregação de valor da produção, custo elevado da mão-de-obra e legislação trabalhista (existem culturas ainda muito dependentes de serviços manuais, como café, laranja e cacau e com demanda sazonal), ocorrência e manejo de pragas (de acordo com o Índice de Confiança do Agro/FIESP, a alta intensidade de pragas e doenças só é superado pelas preocupações com clima e preços), conflitos envolvendo terras indígenas, compra de terras por estrangeiros e licença ambiental para construção de infraestrutura. Os transgênicos deverão se consolidar no Brasil. Após 10 anos de sua adoção, a área cultivada com soja, milho e algodão resistentes a herbicidas e insetos atingiu 40 milhões de hectares; em 2014, 91% da soja, 81% do milho e 47% do algodão deverão ser transgênicos. Estão sendo pesquisadas 37 novas tecnologias que poderão, em breve, estar à disposição também dos produtores de feijão, cana, citros e eucalipto.

A produção vegetal e animal para atender a demanda de alimentos, agroenergia e fibras, deverá aumentar em 2014 no Brasil. A previsão inicial era de 196,7 milhões de toneladas de grãos, produzidos em 55,4 milhões de hectares; o clima adverso no final de 2013/início de 2014, com seca e calor no sul/sudeste e excesso de chuva em parte do centro-oeste, deve reduzir a produção em 10 milhões de toneladas (5% da estimativa inicial). As expectativas de chuvas em março no Sudeste devem aliviar a produção de grãos, além das lavouras de café, cana e laranja. A produção de soja deve alcançar 86 milhões de toneladas (não deve superar a produção norte-americana, como se esperava, mas deve crescer 4% sobre a produção de 2013) e a de milho 72 milhões de toneladas. As produções de trigo e algodão devem aumentar. A produção de café deve chegar a 49 milhões de sacas de 60 kg (beneficiado, 75% arábica e 25% conilon), proveniente de 2.016 milhões de hectares em produção e 295 ha em formação.  A cana deve produzir 660 milhões de toneladas, 12% a mais que em 3013, principalmente devido ao aumento do rendimento em 8%. A produção de citros deve continuar estável. A produção de hortaliças e frutas deve avançar na rastreabilidade e certificação. A produção de carne de boi, frango, suínos e leite deve também permanecer estável. A demanda por insumos para produção vegetal e animal deve crescer, com destaque para fertilizantes e defensivos.

Apesar dos gargalos, a produção agrícola (vegetais e animais) deve gerar renda de R$ 440 bilhões em 2014. A China deve continuar sendo a maior importadora. Com o mundo crescendo economicamente e em população, aliado a crescente urbanização e exigência dos consumidores, a demanda por alimentos, agroenergia e fibras de qualidade vai aumentar em 2014 e o Brasil vai consolidar sua posição de fornecedor que mais cresce no mundo. 

Sobre o CCAS

O Conselho Científico para Agricultura Sustentável- CCAS é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo-SP, com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados à sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto.

O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico.

Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos concretos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas.

A agricultura, apesar da sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas, não condizentes com a realidade. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa seja colocado à disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça.

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