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Salvar a "floresta de cabeça para baixo"
A perda da biodiversidade do cerrado é um tiro no pé
Washington Novaes - Jornalista especializado em questões ambientais, já foi secretário de C&T e Meio Ambiente do Distrito Federal.
Que terá levado deputados e senadores constituintes, em 1988, a inscreverem na Constituição, como "patrimônios nacionais", os biomas da Amazônia, da mata atlântica, da zona costeira e do Pantanal - deixando de lado o cerrado, a caatinga e os campos do Sul?
Talvez se diga que estes últimos já estavam próximos da extinção. E que nem o preceito constitucional impediu o avanço da devastação nos que foram considerados patrimônios.
Mas o fato é que , à caatinga e ao cerrado, é atribuído um status inferior - e isso contribuiu para justificar o desprezo à primeira (em boa parte em processo ou ameaçada de desertificação) e o avanço da devastação no segundo.
A ocupação sem critérios do cerrado teve o apoio de bancos e instituições internacionais; o beneplácito de políticas públicas, como o Pólo Centro, o Pólo Noroeste, que desmataram o Centro-Oeste e o Noroeste; além de programas de cooperação binacional como o Prodecer, que, com o apoio da Jica (instituição japonesa), dizimou boa parte do cerrado em regiões tributárias do São Francisco, e secou afluentes, para implantar monoculturas de soja.
De qualquer forma, as perdas no cerrado tiveram, no mínimo, a conivência da sociedade, convencida de que esse era o caminho para impedir um mal maior, o desmatamento na Amazônia.
Uma pesquisa feita em Brasília em 1990, sobre a visão da sociedade a respeito do cerrado (que a rodeia), já deixava isso claro. Mais de 90% dos brasilienses pesquisados diziam tratar-se de uma "paisagem feia, triste e inútil".
Dois anos depois, quando se discutia numa teleconferência o relatório brasileiro para a conferência do RJ, a representante da Secretaria Nacional do Meio Ambiente que a presidia, respondendo a uma pergunta sobre queimadas no Centro-Oeste, não hesitou em dizer: "Ainda bem que é no cerrado, e não na Amazônia."
Quase 20 anos depois da Constituição, foi criada há poucas semanas, por decreto presidencial, a Comissão Nacional do Cerrado Sustentável (Conacer), com 27 membros de sete ministérios e da sociedade.
Ela terá como tarefa central a ampliação das áreas de proteção legal no cerrado e a concepção e execução de projetos de uso sustentável. Já não é sem tempo.
Hoje, o cerrado, embora teoricamente disponha de um terço da biodiversidade brasileira, tem menos de 2% de seu território sob proteção integral (a meta mundial é de 10% de cada bioma, pelo menos).
A Conacer disporá este ano de US$ 81 milhões do Fundo Global para o Meio Ambiente e do Ministério do Meio Ambiente.
Talvez sua criação consiga também fazer tramitar no Congresso Nacional o projeto de emenda constitucional (PEC 155/95) que ali se arrasta há 11 anos e transforma o cerrado e a caatinga em patrimônios nacionais.
É possível que os dois caminhos possam ajudar a salvar o muito pouco que resta do cerrado, essa "floresta de cabeça para baixo" a que se referia o escritor goiano Carmo Bernardes (porque a maior parte da biomassa do cerrado está debaixo do chão, nas raízes que mergulham fundo, em busca de água - ao contrário da biomassa amazônica, quase toda acima da superfície, porque a camada fértil de solo é pouco espessa).
Já se mencionou neste espaço a avaliação da Embrapa Monitoramento por Satélite segundo a qual, embora exista vegetação em pouco mais de 20% do território originário do bioma (mais de 1 milhão de Km²), só restam de fragmentos do cerrado com possibilidade de sobrevivência (mais de 2 mil hectares contínuos) menos de 5% da área originária.
Os preços que o país já está pagando pelo avanço desordenado e muito rápido no bioma não são poucos.
A remoção da vegetação responde por aumentos localizados da temperatura e redução da produtividade em várias culturas, como atestaram técnicos da Embrapa em recente debate sobre o bioma durante a reunião da Convenção da Biodiversidade, em Curitiba.
Mudanças climáticas já impuseram pesadas perdas à agricultura na seca extemporânea de 2005 e agora, em 2006, com chuvas pesadas, de novo fora do tempo, nesta época da colheita (em certas áreas de Goiás choveu nos dez primeiros dias de abril o triplo da média histórica de todo o mês).
A remoção da vegetação também dificulta a polinização e prejudica várias culturas.
Monoculturas eliminam grande parte dos nutrientes do subsolo, reduzem a fertilidade, até em áreas de pastagem (numa das últimas negociações com o Fundo do Centro-Oeste se mostrou que 70% das pastagens goianas se encontram em algum estágio de degradação).
Não é tudo. São visíveis a olho nu as conseqüências do desmatamento no regime hidrológico do cerrado, onde estão 14% das águas que formam as três maiores bacias brasileiras (São Francisco, Paraná-Paraguai e Amazonas).
Segundo o próprio Ministério do Meio Ambiente, o cerrado só tem estocada água equivalente a três anos dos seus fluxos - e uma estiagem prolongada pode ter conseqüências graves.
A "mãe da água" a que se refere a linguagem popular parece sitiada, assoreada, poluída.
Talvez mais grave que tudo seja o desaparecimento de grande parte da rica biodiversidade do cerrado.
E isso exige ação urgente, para transformar em áreas de proteção integral os fragmentos com possibilidade de sobrevivência, e para que neles se invista maciçamente em ciência, conhecimento, projetos de uso sustentável.
O país já sabe agora sobre o cerrado muito mais do que conhecia há 40 anos, quando se intensificou a blitz devastadora (que ainda prossegue em Mato Grosso, no oeste da Bahia, em Tocantins, no Maranhão e no Piauí).
Não pode continuar conivente com a perda. Até mesmo porque é um tiro no pé. Fonte: O Estado de SP, 5/5
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