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Raiz do Emprego Urbano
Raiz do Emprego Urbano
Autor Ventura 21/01/2004

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» Raiz do Emprego Urb...

Comida ou emprego: ninguém conseguirá responder, ao certo, qual deles é mais importante para a sociedade. Sem alimento na mesa, não há povo que sobreviva feliz. Mas, hoje, o que falta mesmo é emprego para as pessoas. Sem trabalho, não há dignidade humana.

A fome assola a civilização desde suas origens. Com a urbanização, excedentes alimentares passaram a ser preciosos. E nem sempre deram conta de saciar as necessidades do abastecimento. A razão malthusiana chegou para explicar o dilema: enquanto a população cresce a taxas geométricas, a produção de alimentos cresce aritmeticamente.

Passado o tempo, a previsão catastrófica de Malthus acabou superada. A tecnologia permitiu tanto a expansão das áreas cultivadas como, principalmente, o aumento dos rendimentos da terra. Enquanto isso, as altas taxas de crescimento populacional cediam com o desenvolvimento econômico. Foi um alívio.

As guerras sempre complicaram o quadro alimentar, traumatizando as nações. Assim surgiu,na Europa, a política de segurança alimentar, nome pomposo que se dá,modernamente, para a clássica função produtiva da agricultura. Garantir alimentos de qualidade passou a ser razão de Estado.

Hoje claro está, salvo exceções localizadas especialmente na África, que a fome não advém da falta de comida, mas sim da deficiência de renda das famílias. Sem dinheiro no bolso, não há como adquirir a refeição. O problema, portanto, é econômico,não agronômico.

No Brasil,verdadeiras revoluções tecnológicas, agora potencializadas pela engenharia genética, levaram a que a agropecuária fosse capaz não apenas de produzir o pão-nosso-de-cada-dia, mas também de torná-lo acessível aos mais pobres. Estudo encomendado pela Embrapa mostra que, de 1975 a 2000, o preço real médio dos alimentos diminuiu 5,25% ao ano. A comida ficou barata.

Por isso,graças à competência e ao profissionalismo dos agricultores, o arroz com feijão nem incomoda o gasto familiar médio, conforme mostrou levantamento recente da FGV. De cada R$ 100 de renda, o brasileiro gasta em média R$ 1,30 com arroz e feijão, contra R$ 1,47 com TV a cabo e Internet. Curioso, o assunto virou manchete.

Parou de comer a população? Claro que não. O consumo de alimentos se sofisticou. Produtos básicos cederam lugar aos industrializados, tendência própria da época. Há décadas se reduz o consumo per capita de arroz e feijão. Em contra posição aumentam os alimentos processados, embutidos, embalados. No fogão a lenha, o feijão se cozinha com calma e gosto. Na correria da metrópole, quem manda é o fast food. Sai o frango inteiro, entra a coxa e o peito.

Importa destacar que esse processo de industrialização e distribuição de alimentos esconde um valor fundamental, moderno, da agricultura: a produção de renda e empregos fora do campo. Complexas cadeias produtivas se formam a partir da produção rural, estendendo-se por todaa economia.

Vejam os números: o PIB rural do país, aquele que se contabiliza dentro da porteira das fazendas, representa cerca de 9% da economia nacional. É pouco, sem dúvida. Mas quando se soma a incorporação de riquezas que ocorre após a porteira, a conta muda substancialmente. Incluindo-se também a indústria de máquinas e insumos, o PIB do chamado agronegócio atinge 27% do total. Coisa de gente grande.

Mas é no emprego, entretanto, que reside o maior valor da agricultura atual. Fruto dessa imbricação entre o rural e o urbano, milhões de postos de trabalho são oferecidos nas cadeias produtivas que se erguem da roça até chegar aos supermercados, restaurantes, lojas de vestuário. No global, 37% dos empregos do país encontram-se diretamente na agricultura ou dependem dos produtos agropecuários para existir.

Tomem o exemplo da pecuária de corte. Sabidamente a criação e engorda de bois não gera muitos empregos. Alguns beócios chegam até a condenar a atividade como anti-social. Desconhecem, porém, que a rês é abatida no frigorífico, que a distribui aos açougues, supermercados e indústrias, que a processa, embala,exporta. Do pasto à mesa do consumidor um longo caminho agrega valor e cria valiosos empregos.

Garçons, sem o saber, dependem do vaqueiro para trabalhar. Assim como jovens vendedores de jeans no Shopping garantem seu ganho graças ao cotonicultor. Na agricultura está a raiz do emprego urbano. Pense nisso.

No panetone do Natal, na champagne do reveillon, no tender da ceia, na roupa elegante, no papel da agenda nova, aonde você olhar, descobrirá escondido o suor de um agricultor, o trabalhador do campo oferecendo a chance para o operário da cidade. Os primeiros estão na base da produção. Os demais adicionam valor ao produto da roça.

Projeções do BNDES indicam que, em 2004, o agronegócio brasileiro deve gerar 1,32 milhão de empregos, sendo 400 mil diretamente no campo, outros 340 mil nas cadeias produtivas e os demais 580 mil em conseqüência do efeito da renda agropecuária.É fantástico. No interior do Brasil, quando a agricultura vai bem, o comércio vende mais, contrata gente, alegra a vida.

Mais que comida, a sociedade ganha vigor com a agropecuária, que se expande de forma espetacular pelo país afora, interiorizando o desenvolvimento brasileiro. Felizmente, recua a discriminação cultural contra o caipira. Logo, o homem do campo será homenageado pelo cidadão urbano. Pela comida barata que produz e o emprego farto que oferece. Uma gratidão à raíz.

Autor: Xico Graziano


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