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Plantio Direto
Plantio Direto
Autor Ventura 28/09/2004

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» Plantio Direto

As chuvas chegaram. Dias quentes, aumento da luminosidade, está começando mais uma safra de verão. Promete ser novo recorde no volume de grãos. Tomara.

Agricultores de vários cantos se preparam para iniciar seus plantios. Máquinas revisadas, fertilizantes e agrotóxicos encomendados, custeio bancário engatilhado. Tudo preparado, fora a reza. Que S. Pedro nos ajude!

Breve, a poeira dos campos se levantará pelo movimento dos tratores, denunciando a terra revolta para receber as sementes. Arar, gradear, uma, duas vezes se necessário, acabar com o mato, limpar o terreno, abrir o chão, vai germinar novo ciclo da vida rural. Correto?

Não totalmente. Quem imagina a zona rural nos moldes como a descrevem tradicionalmente, repleta de máquinas que reviram o solo e avermelham a testa suada dos tratoristas, comete um erro de interpretação. Escarificar o terreno significa passado na moderna agricultura nacional.

Plantio direto: assim se denomina a técnica responsável pela verdadeira revolução na forma de produzir no campo. De, talvez, 47 milhões de hectares a serem plantados agora, cerca de 25 milhões não conhecerão mais o disco do arado. Sai pra lá!

Entender isso é fundamental. Nas regiões agrícolas prósperas, especialmente na fronteira de expansão do cerrado, onde se cultiva soja, milho e algodão, o solo não mais é revolvido, nem afofado, antes da semeadura. Melhor dizendo, não como um todo. No plantio direto - aqui está a diferença - apenas o pequeno sulco que receberá a semente é preparado mecanicamente. No resto, permanece o solo intacto.

Quem inventou o plantio direto foi o agricultor nacional. O pioneiro chama-se Herbert Bartz. Em 1972, esse intrépido agricultor cometeu uma heresia agronômica na sua propriedade, situada em Rolândia, norte do Paraná. Depositou suas sementes diretamente na vala de plantio, sem arar a terra. Alguns anos depois, nos campos gerais de Ponta Grossa, produtores aderiram à novidade. Os unia a vontade de combater a erosão que estava destruindo seu terreno.

Aqui mora o perigo da agricultura tropical. As chuvas torrenciais, aliadas às demais características do ecossistema, tornam-se uma grave ameaça à produtividade. Nos países temperados, Europa e EUA, o período de inverno rigoroso faz gelar o solo, interrompendo sua vida microbiana. Ao iniciar o degelo, torna-se necessário revirar suas camadas mais profundas, expondo-as ao sol enriquecedor da primavera. Remexer o solo, lá, garante abundância.

Copiada para o Brasil, a técnica gerou a tragédia: enormes voçorocas surgiram, marcando o solo como cicatrizes do mal. Ao se intensificar a produção, seguia a perda de fertilidade. Curvas de nível e terraços foram implementados, métodos de combate da erosão desenvolvidos. Mas não cessava o castigo da natureza.

A idéia inovadora do plantio direto mostrou um novo caminho para a agronomia. Da incredulidade inicial, avançou-se para a pesquisa. Órgãos como o IAC, Iapar, Embrapa, investiram no aprimoramento da técnica. Inovaram a ciência.

Os próprios agricultores, porém, foram decisivos no processo. Em 1982, organizaram no Rio Grande do Sul os famosos "Clubes Amigos da Terra". Na Manah, conhecida empresa tupiniquim de adubos, surgia um grande divulgador do plantio direto na palha, o agrônomo Fernando Penteado Cardoso.

A velha receita - manter a área limpa - acabou de ponta cabeça. No plantio direto, ao invés de serem destruídos, os restos de cultura são utilizados como cobertura morta, para proteger o solo, mantendo-o úmido. Recomenda-se inclusive plantar espécies, como o milheto, que são dessecadas com herbicidas para formar um manto sobre a terra. Aí, depois, semeia-se a cultura principal.

A técnica somente se viabilizou com o avanço mecânico, na década de 80. No princípio, máquinas tradicionais foram adaptadas; ao final, surgiram as plantadeiras específicas para plantio direto. O pulo-do-gato aconteceu com a colocação, na parte frontal das plantadeiras, de um "disco-corte", que segue na frente enterrando sua lâmina e seccionando raízes e restos de cultura. É o abre-alas das modernas plantadeiras desenvolvidas no país, sem rival no mundo.

Parece aula de agronomia. Mas não se compreende a notável revolução de produtividade que acomete a agropecuária nacional sem atentar para certos detalhes do desenvolvimento tecnológico. A chamada vontade política não explica tudo, como gostam de se gabar governos.

O Brasil caminha rapidamente para assumir a dianteira da agropecuária mundial. É o que apontam todos os indicadores. A supremacia, mais que no volume, se dará na qualidade da produção. Gera-se no país uma agricultura tropical, baseada no conceito da sustentabilidade, que se fortalece arrebentando velhos dogmas importados.

Alteram-se as atitudes da produção rural. Jovens agricultores substituem velhos fazendeiros, gigolôs da terra cedem lugar para produtores profissionais, ecológicos. Quem duvida, participe de um dia de campo promovido pelos "Amigos da Terra", como os que se realizam, por exemplo, em Uberlândia, MG. Agricultores inovadores se unem para progredir, sob o rótulo do conservacionismo.

Elogiado por pesquisadores de todo o mundo, recomendado pela FAO, o sistema de plantio direto na palha transformou-se num paradigma. Nasce assim o conceito de nova agricultura. Pachamama agradece.

Autor: Xico Graziano


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